Quando o caminho é difícil, a professora vai assim mesmo: a rotina de Jane Flores no interior do AM

Quando o caminho é difícil, a professora vai assim mesmo: a rotina de Jane Flores no interior do AM

Professora percorre diariamente cerca de 70 quilômetros para garantir o acesso à educação em comunidade rural de Manacapuru

Todos os dias, antes de muitos alunos acordarem, Jane Flores de Morais já está em deslocamento. Formada em Pedagogia pela Universidade Nilton Lins e com pós-graduação em Psicopedagogia pela Uniasselvi, ela percorre aproximadamente 70 quilômetros diários, entre estrada e trechos de difícil acesso, para dar aulas na comunidade conhecida como Agro-vila do Maneirão, na zona rural de Manacapuru.

O trajeto, que varia conforme o clima e o período do ano, não é exceção em sua rotina. É regra. A distância entre a residência e a escola representa um dos principais obstáculos para quem escolhe atuar fora dos centros urbanos no Amazonas. Ainda assim, Jane mantém presença contínua na sala de aula, lidando com alunos que enfrentam realidades semelhantes às do próprio deslocamento: isolamento geográfico, poucas opções de acesso a serviços públicos e estrutura educacional limitada.

Além da atuação na zona rural, Jane também trabalha na Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré, instituição tradicional de Manacapuru que, segundo dados oficiais, oferece ensino médio regular e cursos técnicos mediados pelo Estado por meio do CETAM. A dupla jornada entre escola urbana e comunidade rural amplia seu impacto educacional e social.

Para Jane, o esforço diário vai além da função profissional. O deslocamento representa oportunidade. Para os alunos, significa acesso regular ao ensino. Para ela, é continuidade de formação prática e humana. A experiência em contextos distintos permite compreender melhor as desigualdades educacionais e adaptar estratégias pedagógicas conforme o ambiente.

No interior do Amazonas, a logística escolar é um dos principais fatores de evasão. Quando o professor não chega, a aula não acontece. Quando o aluno não consegue se deslocar, o aprendizado é interrompido. Nesse cenário, a constância do educador se torna parte essencial do sistema. Jane atua justamente nesse ponto sensível: a garantia de que o ensino chegue onde a estrutura ainda é frágil.

A Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré, onde ela também leciona, recebeu recentemente 133 computadores destinados a laboratório, secretaria, apoio pedagógico e salas de aula. O investimento sinaliza avanço tecnológico e modernização do ensino, mas não substitui o papel do professor que sustenta o cotidiano escolar. A tecnologia amplia, mas não cria vínculo. Esse vínculo nasce da presença.

A trajetória de Jane Flores de Morais evidencia um aspecto pouco debatido da educação brasileira: a mobilidade forçada do educador para garantir o funcionamento do sistema em áreas periféricas e rurais. Não se trata apenas de ensinar conteúdos, mas de manter viva a estrutura mínima da escola como instituição social.

Enquanto parte do debate nacional sobre educação se concentra em desempenho e indicadores, histórias como a de Jane mostram o estágio anterior da equação: o acesso físico à sala de aula. Antes de discutir qualidade, é preciso assegurar existência.

A educação no Amazonas exige mais do que planejamento institucional. Exige disposição humana. Professores como Jane sustentam, na prática, políticas públicas que no papel parecem simples. O deslocamento diário de dezenas de quilômetros é parte invisível da engrenagem educacional que mantém crianças e jovens dentro da escola.

Ao atravessar estradas e comunidades para dar aula, Jane não apenas cumpre carga horária. Ela reduz distâncias sociais. Cada dia de aula mantido é um dia a menos de ruptura no processo educacional de quem vive longe dos centros urbanos.

A história de Jane Flores de Morais não é exceção isolada, mas retrato de uma categoria que atua onde a educação depende mais da persistência do que da estrutura. Em regiões onde o acesso é o primeiro desafio, o professor se torna ponte. E, muitas vezes, é essa ponte que sustenta o futuro possível de quem vive fora do mapa central do país.

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