Enquanto o discurso fala de inovação, a realidade mostra que a maioria dos empreendedores ainda não domina o básico da gestão do dinheiro
Existe uma contradição silenciosa acontecendo no empreendedorismo brasileiro. Nunca se falou tanto em inovação, startups e tecnologia, mas, na prática, milhões de pequenos negócios continuam quebrando pelo mesmo motivo de décadas atrás: falta de controle básico do dinheiro.
O discurso moderno vende a ideia de que crescer é investir em marketing, redes sociais e presença digital. Pouco se fala, porém, sobre algo menos glamouroso e muito mais decisivo: o empreendedor brasileiro não sabe exatamente quanto custa manter o próprio negócio aberto.
Em conversas com comerciantes, prestadores de serviço e microempreendedores em cidades médias e pequenas, a resposta se repete. Muitos sabem quanto vendem, mas poucos sabem quanto realmente lucram. Confunde-se faturamento com ganho real. Quando o dinheiro entra, ele sai quase na mesma velocidade, sem planejamento, sem separação clara entre pessoa física e jurídica.
O problema não é falta de vontade. É falta de cultura financeira aplicada ao dia a dia do negócio. O empreendedor aprende a vender, aprende a divulgar, aprende a improvisar, mas não aprende a ler números simples. Isso cria uma ilusão perigosa: o negócio parece vivo, mas está se sustentando em areia.
Outro ponto pouco discutido é que muitos negócios funcionam como extensão da renda familiar. A empresa paga contas pessoais, cobre emergências domésticas e vira um caixa único. Quando surge um imprevisto, o capital de giro desaparece. Quando chega o fim do mês, não há reserva, apenas sobrevivência.
Essa realidade explica por que tantos negócios não resistem a pequenas crises. Não é a concorrência, não é o imposto, não é a economia sozinha. É a ausência de estrutura mínima de gestão financeira. Negócios fecham não por falta de clientes, mas por falta de clareza.
Existe também uma romantização do improviso. O empreendedor que “se vira”, que “dá um jeito”, que “resolve no aperto”. Isso funciona no curto prazo, mas cobra um preço alto no médio e longo prazo. Improvisar sempre significa não planejar nunca.
O mais preocupante é que essa fragilidade raramente aparece nas redes sociais. O que se vê são vitrines, frases de efeito e discursos motivacionais. Poucos mostram o bastidor real: planilhas simples, controle de despesas, metas realistas e decisões difíceis.
O futuro dos pequenos negócios não depende apenas de tecnologia ou inovação. Depende de maturidade. Entender que empreender é administrar, decidir, organizar e, muitas vezes, dizer não. Sem isso, o negócio cresce para fora e apodrece por dentro.
Talvez o debate mais urgente não seja como vender mais, mas como manter o negócio vivo quando as vendas oscilam. Quem entende isso antes, sobrevive. Quem ignora, repete o ciclo silencioso que ninguém gosta de mostrar.

