O Expresso Ana Paula mostra que empreender no transporte fluvial vai além do capital: envolve decisão, responsabilidade e aprendizado diário.
À primeira vista, o Expresso Ana Paula é apenas mais uma lancha cortando o rio entre Manacapuru e comunidades como Vila do Jacaré, Vila do Repartimento e Vila de Caviana. Capaz de transportar 63 passageiros, com três tripulantes e estrutura adequada de segurança, a viagem parece seguir o curso normal das rotas do interior amazônico. O que quase ninguém imagina é que, por trás desse trajeto, existe uma decisão que mudou completamente o rumo de uma família e de um homem.
Jearleson Nobre não nasceu no transporte fluvial. Durante dez anos, trabalhou em outra área, na cidade, com uma rotina previsível e salário fixo. O negócio das lanchas sempre esteve no horizonte da família, mas havia um obstáculo difícil de contornar: confiança. Não se trata apenas de uma máquina cara, mas de vidas. Cuidar de um jato desse porte exige responsabilidade diária, atenção constante e presença.
A oportunidade surgiu de forma inesperada
Após deixar o emprego, Jearleson comentou sua situação com uma colega que conhecia o então proprietário do Expresso Ana Paula. Soube que os pais dele tinham interesse na compra da lancha, mas ainda não haviam avançado por falta de alguém que assumisse a operação. Uma ligação bastou para destravar o que parecia distante. Dois dias depois, o antigo dono estava na casa da família.
Foi ali que veio a condição definitiva. A mãe de Jearleson foi direta: só compraria o expresso se o filho aceitasse assumir o negócio. Não havia meio termo. Ou ele entrava de vez, ou a compra não aconteceria.
A decisão não foi simples. Assumir uma lancha a jato desse porte envolve custos altos, manutenção constante, gasto elevado com combustível e, acima de tudo, responsabilidade sobre cada passageiro a bordo. Ainda assim, Jearleson aceitou.

O início foi duro. Ele mesmo reconhece que não dominava nem os problemas mais básicos da embarcação. Cada falha parecia maior do que realmente era. Cada saída exigia atenção redobrada. O aprendizado veio na prática, com erros, correções e dias de insegurança. Aos poucos, o que antes parecia impossível foi se tornando rotina.
Hoje, o Expresso Ana Paula opera em dias alternados, com organização e cuidado. A embarcação conta com coletes salva-vidas para adultos e crianças, assentos confortáveis e equipe atenta. Em uma das viagens acompanhadas pela reportagem, a saída foi adiada por conta de troncos e paus acumulados no rio. Mesmo com horário a cumprir, a decisão foi clara: só sair quando houvesse segurança para todos.
Esse tipo de escolha ajuda a entender por que o maior risco nunca foi o rio.
Os pilares dessa trajetória foram os pais. Foram eles que apostaram, confiaram e sustentaram o início do negócio. Jearleson reconhece que sem esse apoio dificilmente teria conseguido seguir. Hoje, com mais experiência, ele já projeta novos passos: adquirir outro jato para fretamento e ampliar investimentos no setor de gado, com planos de estruturação de fazenda. Para ele, um empresário precisa diversificar, aprender e seguir avançando.
A história do Expresso Ana Paula não é apenas sobre transporte fluvial. É sobre decisão, responsabilidade e crescimento. Em uma região onde o rio é caminho, trabalho e sustento, empreender exige mais do que capital. Exige coragem para assumir algo que não pode falhar.
E quando se entende isso, fica claro que o maior risco nunca esteve nas águas. Ele esteve na escolha de assumir, aprender e não desistir.

