Fundada em 1917, a Forbes atravessou mudanças de propriedade, crises da imprensa e a virada digital para se manter no centro do jornalismo de negócios.
A história da Forbes é uma boa síntese da própria história da mídia de negócios no último século. Fundada em 15 de setembro de 1917 por B. C. Forbes, a publicação nasceu quando os Estados Unidos entravam em uma nova fase econômica e política, e cresceu apostando em uma combinação que se mostraria duradoura: cobertura de negócios, culto ao empreendedorismo e linguagem voltada à elite econômica sem abrir mão de apelo popular.
Ao longo do tempo, a revista deixou de ser apenas uma publicação impressa sobre finanças e indústria. Ela se transformou em uma marca de mídia capaz de operar em múltiplas frentes. Essa expansão incluiu jornalismo digital, listas de grande repercussão, eventos, franquias editoriais, edições internacionais e comunidades de executivos.
Da família fundadora à marca global
Durante boa parte de sua trajetória, a Forbes foi identificada com a família fundadora. Isso ajudou a construir uma ideia de continuidade editorial e de marca com personalidade própria. Ainda assim, a empresa também precisou responder às mudanças estruturais que atingiram a indústria da mídia, especialmente a partir do avanço digital e da queda de receitas tradicionais do impresso.
Esse processo culminou em 2014, quando a companhia vendeu participação majoritária do negócio de mídia para o grupo Integrated Whale Media Investments, sediado em Hong Kong, enquanto a família Forbes manteve participação relevante e presença na gestão.
Essa operação foi um divisor de águas. Ela mostrou que até uma das marcas mais emblemáticas da imprensa econômica precisava se reposicionar para sobreviver e crescer em um ambiente transformado pela internet, pela fragmentação de audiência e pela pressão por novas fontes de receita.
A reinvenção como ecossistema
Mas a reinvenção da Forbes não se resumiu à troca de controle acionário. O ponto decisivo foi entender que, no século 21, influência não depende só de revista. Depende de ecossistema. A marca passou a combinar a publicação tradicional com plataformas digitais, franquias globais e produtos derivados que mantêm a Forbes presente em diferentes circuitos de prestígio.
Esse movimento ajuda a explicar por que a Forbes continua relevante mesmo em um mercado onde muitas revistas históricas perderam centralidade. Ela preservou o núcleo simbólico que sempre a diferenciou, a associação com riqueza, empreendedorismo e liderança, mas traduziu esse núcleo para formatos novos.
Mais do que conteúdo, comunidade
Em vez de depender unicamente da edição impressa, a marca passou a operar como distribuidora de conteúdo, plataforma de reconhecimento, organizadora de comunidades e promotora de eventos. A expansão de produtos como o Forbes Councils mostra com nitidez essa mudança. Trata-se de comunidades por convite voltadas a executivos e líderes de diferentes áreas, um exemplo claro de como a marca passou a monetizar também capital relacional, networking e pertencimento.
Já não é só a revista que importa. Importa a promessa de acesso a um universo de influência.
As listas continuam no centro
Ao mesmo tempo, a Forbes não abandonou o que a tornou reconhecida. As listas continuaram no centro da identidade editorial. A diferença é que elas passaram a alimentar um sistema mais amplo de presença pública. A 30 Under 30, por exemplo, evoluiu de lista para comunidade global, com cronologia própria, eventos e ramificações internacionais.
Esse movimento mostra como a marca aprendeu a transformar reconhecimento editorial em plataforma de longo prazo.
O centenário e a narrativa da permanência
A força simbólica dessa trajetória ficou clara no centenário da publicação, quando a própria Forbes enfatizou que vinha registrando momentos centrais da história dos negócios havia cem anos. Mais do que um aniversário, a celebração reforçou uma narrativa de permanência. Em um ambiente midiático marcado por volatilidade, a longevidade se tornou um ativo de reputação.
Mas essa permanência também envolve contradições. Quanto maior a transformação da marca em ecossistema comercial, mais cresce o debate sobre os limites entre jornalismo, negócios paralelos e plataformas de autoridade.
O que a trajetória da Forbes revela sobre a mídia
A expansão para eventos, comunidades executivas e produtos derivados pode ser lida como inteligência estratégica. Também pode ser vista como sinal de que a sustentabilidade da imprensa de negócios, hoje, exige muito mais do que vender reportagens e assinaturas.
Esse ponto é importante porque ajuda a explicar por que a Forbes segue sendo observada com tanta atenção. Sua trajetória fala menos sobre uma revista isolada e mais sobre o destino das marcas jornalísticas no capitalismo digital. A publicação sobreviveu porque soube combinar tradição e adaptação. Preservou o mito do sucesso, mas atualizou seus meios de circulação.
No fundo, a grande reinvenção da Forbes foi esta: deixar de ser apenas uma revista impressa sobre negócios e passar a funcionar como uma infraestrutura global de influência para o mundo dos negócios. É isso que explica por que, mais de um século depois da primeira edição, seu nome ainda desperta atenção, admiração e disputa simbólica.

